Século XIX
Resumo[editar]
Ao longo do século XIX, os estudos linguísticos se organizaram em torno de cinco grandes eixos: o surgimento e a consolidação da linguística histórico-comparativa, os debates sobre a origem e a mudança linguística, o desenvolvimento da dialetologia e da fonética, e a institucionalização da disciplina.
O Romantismo como contexto intelectual[editar]
O século XIX na história dos estudos linguísticos não pode ser compreendido sem referência ao movimento romântico, que lhe forneceu o solo filosófico e cultural. O Romantismo representou, antes de tudo, uma reação ao racionalismo iluminista e ao classicismo greco-romano que dominara os séculos anteriores. Nesse movimento, valorizou-se a Idade Média como período em que as línguas e as culturas populares europeias teriam florescido de forma autêntica, e voltou-se o olhar com entusiasmo para as civilizações orientais — em especial a indiana —, cujo idioma clássico, o sânscrito, passaria a ter papel central nos estudos linguísticos.
Uma noção fundamental para entender a época é o conceito alemão de Weltanschauung ("visão de mundo"), que designa o conjunto de crenças, valores e categorias com que uma cultura interpreta a realidade. Associado a ele estão as ideias de "espírito da época" e de "gênio da língua": a convicção de que cada língua encarna uma forma particular de ver e organizar o mundo. Esse pensamento encontra expressão paradigmática na obra de Johann Gottfried von Herder (1744–1803), para quem a língua era a manifestação mais profunda da identidade nacional e cultural de um povo. Em sua Abhandlung über den Ursprung der Sprache (1772), premiada pela Academia Prussiana, Herder argumenta que a linguagem não é uma dádiva divina, mas um produto da reflexão humana (Besonnenheit), desenvolvendo-se paralelamente ao pensamento como criação histórica e cultural. Para ele, ao contrário da comunicação animal — puramente instintiva —, a linguagem humana é simultaneamente instrumento, conteúdo e forma do pensamento.
Essa valorização da especificidade histórica e cultural das línguas abriu caminho para o interesse em estudar as línguas em sua evolução, em comparar seus estados em diferentes épocas e em reconstruir suas origens — projeto que definiria o programa científico dominante do século.
O Desenvolvimento da Fonética[editar]
Um dos avanços técnicos decisivos do período foi o desenvolvimento de uma fonética mais rigorosa. A fonética grega era essencialmente impressionista e auditiva, confundindo som e letra. Os estudiosos indianos do sânscrito, ao contrário, haviam desenvolvido uma fonética articulatória baseada na fisiologia dos órgãos vocais, descrevendo com precisão o ponto e o modo de articulação dos sons. O contato europeu com essa tradição, por meio dos estudos sânscritos, contribuiu para superar a identificação ingênua entre som e letra e para estabelecer o princípio de que som ≠ letra, fundamento de toda transcrição fonética moderna.
Esse desenvolvimento foi ainda estimulado pela decifração de escritas antigas: a escrita cuneiforme suméria (associada ao trabalho de Henry Rawlinson, 1810–1895), a escrita hieroglífica egípcia (decifrada por Jean-François Champollion, 1790–1832) e a escrita rúnica gótica (estudada por Wilhelm Grimm e Sophus Bugge, entre outros). Cada uma dessas tradições colocava problemas específicos de análise dos sons representados, forçando os pesquisadores a refinarem seus instrumentos fonéticos.
A Origem das Línguas[editar]
A questão da origem da linguagem foi um dos grandes temas do século. Havia, de um lado, a tradição que via a linguagem como dádiva divina, sustentada pela complexidade do fenômeno — posição associada a Johann Peter Süssmilch (1754) e, de certo modo, a Rousseau. De outro, uma tradição naturalista e historicista que procurava explicar a linguagem como criação humana. Étienne Bonnot de Condillac, no Essai sur l'origine des connaissances humaines (1746), propõe uma sequência evolutiva: linguagem de ação → gritos → linguagem articulada.
Em meados do século, Max Müller (1823–1900), em suas célebres Palestras sobre a Ciência da Linguagem (1861–1864), organizou as teorias imitativas da origem da linguagem em quatro grupos, aos quais atribuiu nomes jocosos que ficaram consagrados:
- Teoria Bow-Wow (ou Cuckoo): a linguagem teria se originado de onomatopeias, imitações de sons da natureza.
- Teoria Pooh-Pooh: a linguagem derivaria de interjeições espontâneas ligadas a emoções.
- Teoria Ding-Dong: haveria uma harmonia natural entre sons e coisas, uma espécie de ressonância entre o mundo e a voz humana.
- Teoria Yo-He-Ho: a linguagem teria emergido dos gritos, sons e ritmos produzidos em atividades físicas coordenadas.
Müller era, contudo, cético em relação a todas essas teorias, e sua tipologia tinha caráter crítico. A questão da origem da linguagem tornou-se tão especulativa e insolúvel que a Société de Linguistique de Paris, em seu regulamento de 1866, chegou a proibir formalmente a apresentação de comunicações sobre o tema.
No plano da etimologia, o século XIX assistiu à passagem de práticas especulativas para uma abordagem mais rigorosa, associada, entre outros, a Anne-Robert Jacques Turgot (1727–1781). Uma distinção fundamental que se firmou foi entre empréstimo (palavra adquirida por contato com outra língua) e herança (palavra transmitida de geração em geração dentro de uma mesma linhagem). Dessa distinção decorre o conceito de dobrete (ou par etimológico): duas formas derivadas de uma mesma origem latina, mas por vias diferentes — uma erudita, que preserva a forma latina de perto, e outra popular, que passou por transformações fonéticas regulares ao longo dos séculos. Exemplos em português:
| Étimo latino | Forma popular | Forma erudita |
|---|---|---|
| digitum | dedo | dígito |
| masculum | macho | másculo |
| mastigare | mascar | mastigar |
| macula | mancha / mágoa / malha | mácula |
| plaga | chaga / praga | plaga |
Os Estudos Diacrônicos e o Método Comparativo[editar]
O grande programa científico do século XIX foi o estudo histórico e comparativo das línguas. Seu ponto de partida foi o contato europeu com o sânscrito, que revelou semelhanças sistemáticas com o grego, o latim e outras línguas conhecidas. William Jones (1746–1794), jurista britânico que serviu na Índia, formulou em 1786 a observação fundadora: o sânscrito, comparado ao grego e ao latim, apresenta semelhanças tão fortes — tanto na estrutura verbal quanto nas formas nominais — que seria difícil explicá-las sem postular uma origem comum. A palavra para "mãe" ilustra bem o caso: maatar (sânscrito), mater (latim), meter (grego), mother (inglês), Mutter (alemão), mãe (português), madre (espanhol/italiano), mère (francês).
A partir daí, o método comparativo foi desenvolvido com rigor crescente. Sua premissa fundamental era que as comparações deveriam ser feitas a partir das flexões gramaticais, e não do vocabulário comum, porque palavras podem ser emprestadas, ao passo que paradigmas morfológicos dificilmente o são. Privilegiavam-se também as palavras essenciais — partes do corpo, termos de parentesco, numerais —, menos sujeitas à substituição por empréstimos. A análise fonética sistemática completava o método, buscando correspondências regulares entre os sons de línguas aparentadas.
A tabela a seguir ilustra a regularidade das correspondências nas desinências do paradigma de genus em latim, sânscrito e grego:
| Caso | Latim | Sânscrito | Grego |
|---|---|---|---|
| Nominativo | GEN-US | GAN-AS | GEN-OS |
| Genitivo | GEN-ERIS | GAN-ASAS | GEN-EOS |
| Locativo | GEN-ERE | GAN-ASI | GEN-EI |
| Nominativo pl. | GEN-ERA | GAN-ASU | GEN-ES |
| Genitivo pl. | GEN-ERUM | GAN-ASAM | GEN-EON |
A comparação revela, por exemplo, que a sequência latina [vogal + r + vogal] corresponde sistematicamente às sequências sânscrita e grega [vogal + s + vogal] — fenômeno explicado pela hipótese de que o proto-indoeuropeu teria um som intermediário que evoluiu diferentemente nas duas tradições (a chamada rotacização do /s/ intervocálico em latim).
Outro exemplo eloquente está na mudança vocálica das línguas românicas. O /Ŏ/ breve latino torna-se /UE/ em espanhol, /EU/ ou /O/ em francês e /Ô/ ou /Ó/ em português:
| Latim | Espanhol | Francês | Português |
|---|---|---|---|
| NŎVUS | nuevo | neuf | novo |
| PŎPULU | pueblo | peuple | povo |
| MŎVET | mueve | meut | move |
| PŎRTA | puerta | porte | porta |
A regularidade dessas correspondências é o que distingue a mudança linguística do acaso.
Os grandes nomes da linguística comparativa[editar]
Rasmus Rask (1787–1832) foi um dos pioneiros na demonstração da mudança sonora regular, mostrando que as correspondências entre as línguas germânicas e as línguas clássicas seguiam padrões sistemáticos.
Franz Bopp (1791–1867) é considerado o fundador da gramática comparada como disciplina autônoma. Em sua obra Über das Conjugationssystem der Sanskritsprache in Vergleichung mit jenem der griechischen, lateinischen, persischen und germanischen Sprache (1816) e, mais tarde, na monumental Vergleichende Grammatik (1833–1852), ele estabeleceu as bases do método e demonstrou o parentesco sistemático das línguas indoeuropeias, incluindo sânscrito, persa, grego, latim, lituano, eslavo antigo, gótico e germânico.
Jacob Grimm (1785–1863), mais conhecido ao grande público pelos contos de fadas recolhidos com o irmão Wilhelm, foi o criador da gramática histórica do alemão e formulou em 1822 a célebre Lei de Grimm, que descreve as mudanças consonantais sistemáticas ocorridas nas línguas germânicas em relação às demais línguas indoeuropeias. A lei pode ser resumida em três etapas:
- As oclusivas sonoras aspiradas proto-indoeuropeias (*bh, *dh, *gh, *gwh) tornaram-se oclusivas sonoras simples nas línguas germânicas (b, d, g, w).
- As oclusivas sonoras simples (*b, *d, *g, *gw) tornaram-se oclusivas surdas (p, t, k, kw).
- As oclusivas surdas (*p, *t, *k, *kw) tornaram-se fricativas surdas (f, þ/th, x/h, hw).
Assim, o latim pater (com /p/ original) corresponde ao inglês father (com /f/); o latim dentis corresponde ao inglês tooth (com /t/ → /th/); o latim cornu corresponde ao inglês horn (com /k/ → /h/). Grimm identificou também fenômenos de alternância vocálica como o Ablaut (ou apofonia: pode / pôde em português; stark / stärker em alemão) e o Umlaut (ou metafonia: swach → schwäche em alemão).
August Schleicher (1821–1868) levou o comparativismo a suas consequências mais ambiciosas. Influenciado pelo darwinismo, propôs a teoria da árvore filogenética (Stammbaumtheorie): as línguas relacionam-se como ramos de uma árvore, derivando de um tronco comum (a Ursprache ou Grundsprache). Com base nesse modelo, aventurou-se a reconstruir o proto-indoeuropeu (marcando as formas hipotéticas com asterisco, convenção que permanece até hoje) e chegou a escrever uma fábula nessa língua reconstituída. Schleicher tinha também uma visão decadentista da evolução linguística: o período pré-histórico seria o da criação e complexificação das línguas, enquanto o período histórico seria o da decadência, numa progressão regressiva do tipo flexional → aglutinante → isolante. Sua concepção da língua como organismo natural foi criticada por confundir entidades biológicas com fenômenos culturais.
A Hipótese do Proto-Indoeuropeu e sua Difusão[editar]
A hipótese de uma língua-mãe comum às línguas indoeuropeias — o proto-indoeuropeu — foi a grande hipótese unificadora do século. O método comparativo foi aplicado a diversos ramos linguísticos:
- Filologia germânica: desenvolvida sobretudo por Jacob Grimm, com sua Deutsche Grammatik (1819–1837).
- Filologia grega: associada ao trabalho de Georg Curtius (1820–1885).
- Filologia românica: fundada por Friedrich Diez (1794–1876), que demonstrou a derivação sistemática das línguas românicas a partir do latim vulgar (e não do latim clássico), e ampliada por Wilhelm Meyer-Lübke (1861–1936), cujas obras de gramática histórica e etimologia das línguas românicas tornaram-se referências fundamentais.
A difusão geográfica do proto-indoeuropeu é objeto de estudo arqueológico e linguístico até hoje. Os mapas disponíveis para diferentes períodos (3500 AEC, 2500 AEC, 1500 AEC, 500 AEC) revelam a expansão gradual dos falantes dessas línguas, com ramificações em direção à Europa Ocidental, ao Mediterrâneo, ao Irã e à Índia.
As Causas da Mudança Linguística[editar]
Por que as línguas mudam? A pergunta ocupou amplamente os estudiosos do século. Jacob Grimm tinha uma resposta de coloração mística: a mudança consonantal germânica expressaria um "desejo de liberdade" do espírito germânico. Muito mais analítica foi a lista proposta por J. H. Bredsdorff em 1821, que antecipava em décadas muitos dos fatores que a sociolinguística moderna reconheceria:
- Má audição e compreensão imperfeitas por parte dos ouvintes
- Recordação falha das formas ouvidas
- Imperfeição dos órgãos articulatórios
- Indolência (tendência à economia articulatória)
- Tendência à analogia (regularização de formas)
- Desejo de distinção social
- Necessidade de exprimir novas ideias
Os Neogramáticos (Junggrammatiker)[editar]
Na segunda metade do século, a chamada Escola de Leipzig ou Escola Neogramática (Junggrammatiker) radicalizou o programa comparativista ao formular o princípio de que todas as mudanças sonoras obedecem a leis sem exceções. Os aparentes contra-exemplos seriam explicáveis por dois mecanismos: a interferência da analogia (que nivelava formas por semelhança morfológica) e o empréstimo entre línguas ou dialetos.
Entre os representantes mais destacados estão Wilhelm Scherer e Karl Brugmann. Hermann Paul (1846–1921), em seus Prinzipien der Sprachgeschichte (1880), levou as consequências do programa neogramático ao extremo ao afirmar que o único estudo verdadeiramente científico da língua é o estudo histórico, e que a regularidade da mudança é a condição de cientificidade da linguística.
O neogramativismo foi influente, mas também recebeu críticas importantes, analisadas na seção seguinte.
Críticas ao Comparativismo[editar]
Ao longo do século, surgiram diversas vozes críticas que apontavam limitações do programa comparativista dominante.
Wilhelm von Humboldt (1767–1835) chamou atenção para o caráter dinâmico e psicológico da linguagem. Para ele, a língua não é produto (ergon), mas processo (energeia); não é um sistema acabado, mas uma atividade contínua. Além disso, a innere Sprachform (forma interna da língua) seria responsável pela ordenação e categorização dos dados da experiência — antecipando, nesse ponto, discussões que o século XX retomaria com Sapir e Whorf.
William Whitney (1827–1894), em suas obras a partir de 1861, contestou a concepção organicista das línguas e insistiu em seu caráter de produto cultural: as línguas são como a religião e as leis, criações humanas e não organismos naturais. Essa perspectiva teria grande influência sobre Saussure.
Johannes Schmidt (1843–1901) propôs em 1872 a Teoria das Ondas (Wellentheorie) como alternativa ao modelo arbóreo de Schleicher. Segundo ela, as mudanças linguísticas propagam-se como ondas a partir de centros irradiadores, afetando de forma gradual e contínua as variedades vizinhas. As derivações não seriam binárias nem repentinas, e a distribuição das isóglossas refletiria a interferência de fatores geográficos e sociais.
Wilhelm Wundt (1832–1920), em sua Völkerpsychologie (1900), criticava o foneticentrismo dos comparatistas, argumentando que a linguagem é apenas um modelo analítico para o pensamento, que tem natureza sintética.
Graziadio Ascoli (1829–1907) chamou atenção para os fatores políticos da mudança linguística: as mudanças seriam resultado, em muitos casos, de processos de conquista e dominação — noção que ele desenvolveu sob o conceito de substrato linguístico.
Duas críticas de caráter metodológico completam o quadro:
- Foneticentrismo: os comparatistas concentravam-se prioritariamente na análise fonética, negligenciando outros níveis (morfologia, sintaxe, semântica).
- Etnocentrismo: o foco quase exclusivo em línguas indoeuropeias — especialmente germânicas — deixava de lado a enorme diversidade dos outros troncos linguísticos e as especificidades de línguas em formação, como os crioulos.
Os Idealistas[editar]
Em contraponto ao cientificismo neogramático, a corrente idealista insistia no papel do indivíduo e da criatividade na linguagem. Karl Vossler (1872–1949) argumentava que toda mudança linguística tem seu ponto de partida no indivíduo, que a linguagem é primariamente um meio de expressão individual e que a mudança linguística é um ato consciente. Essa posição levava a uma valorização do aspecto estético da linguagem que os linguistas históricos consideravam excessiva.
A Dialetologia[editar]
O interesse pela variação linguística no espaço geográfico deu origem à dialetologia como disciplina sistemática. Já no século XVII, Leibniz havia proposto o estudo da toponímia como fonte para a história das línguas. O projeto de mapear a variação linguística — expresso no lema Wörter und Sachen ("palavras e coisas") — concretizou-se com a elaboração dos primeiros atlas linguísticos, que representam cartograficamente as variantes regionais por meio de linhas isoglóssicas (linhas que delimitam as comunidades de fala que partilham um determinado traço).
Em 1881, Gustav Wenker iniciou o levantamento para o Atlas Linguístico da Alemanha, valendo-se de um método inovador: o envio de questionários por correspondência a professores de todo o território. Em 1900, o francês Jules Gilliéron publicou o Atlas Linguístico da França (Atlas linguistique de la France), baseado em inquérito pessoal conduzido por Edmond Edmont, que percorreu o país entrevistando falantes nas localidades.
Os estudos dialetológicos colocaram em questão a rigidez das leis fonéticas neogramáticas: a distribuição geográfica das variantes mostrava que "toda palavra tem sua própria história", como formulou Gilliéron. As formas lexicais competem entre si; o desgaste fonético pode criar homonímias incômodas, que são resolvidas por paronímias ou empréstimos — numa dinâmica que não se deixa capturar por leis mecânicas.
A Institucionalização dos Estudos Linguísticos[editar]
O século XIX foi também o período em que os estudos linguísticos se institucionalizaram, com a criação de sociedades científicas e espaços de publicação especializados:
- 1838: Fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), no Rio de Janeiro, que incluía entre seus interesses o estudo da língua e da literatura nacionais.
- 1842: Fundação da Philological Society, em Londres, que lançaria o projeto do Oxford English Dictionary.
- 1864: Fundação da Société de Linguistique de Paris, a primeira sociedade estritamente linguística do mundo.
- 1897: Fundação da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro, voltada para a norma e o cultivo da língua literária.
A Tradição Gramatical Brasileira[editar]
No Brasil, o século XIX assistiu à consolidação de uma tradição gramatical própria, marcada por tensões entre dois períodos e duas orientações.
O período racionalista foi dominado pelas gramáticas filosóficas, de inspiração iluminista e lógica, que buscavam descrever a língua a partir de categorias universais do pensamento. O período "científico", na segunda metade do século, foi marcado pela influência do historicismo europeu e por um debate identitário crescente: as tensões entre a norma lusitana e a norma brasileira, o reconhecimento progressivo das especificidades do português falado no Brasil e a defesa da legitimidade dos usos locais.
Esse debate tinha dimensões literárias e políticas. O nativismo de escritores como Gonçalves Dias e José de Alencar reivindicava a legitimidade da língua brasileira como expressão da identidade nacional. A controvérsia entre Sílvio Romero — defensor da linguagem popular e regional — e Lúcio de Mendonça — purista e lusitanista — é um dos episódios mais representativos dessas tensões.
Principais gramáticas do século XIX[editar]
A produção gramaticográfica do período é extensa. Destacam-se:
- 1811 — Francisco Freire de Carvalho, Nova Gramática Filosófica da Língua Portuguesa. Abordagem lógica, voltada para o "bom uso" da língua.
- 1822 — Jerônimo Soares Barbosa, Gramática Filosófica da Língua Portuguesa. Abordagem racionalista, fundada na lógica; tentativa de unificar gramática e retórica.
- 1841 — Antônio de Morais Silva, Compêndio da Gramática da Língua Portuguesa. Voltado para o ensino básico, com regras claras e concisas.
- 1854 — Domingos Borges de Barros, Gramática Filosófica da Língua Portuguesa. Introduz preocupações com o uso do português no Brasil.
- 1858 — Joaquim Norberto de Souza e Silva, Gramática da Língua Portuguesa. De orientação nacionalista: inclui exemplos do português brasileiro e defende a legitimidade de certos usos locais.
- 1872 — Júlio Ribeiro, Grammatica Portuguesa. Propõe uma escrita mais fonética, que reflita a pronúncia brasileira; fortemente influenciada pela linguística histórico-comparativa europeia.
- 1881 — João Ribeiro, Gramática Portuguesa. Descreve variantes do português brasileiro.
- 1883 — Eduardo Carlos Pereira, Gramática da Língua Portuguesa. Propõe simplificação da análise gramatical.
- 1887 — Alfredo Gomes, Gramática Portuguesa. Ênfase em exercícios práticos e preocupação com a pronúncia brasileira.
- 1890 — Ernesto Carneiro Ribeiro, Serões Grammaticaes. Crítica ao purismo excessivo e defesa do uso brasileiro.
O Ensino de Língua Portuguesa no Brasil[editar]
O ensino primário[editar]
O ensino primário no Brasil do século XIX era legalmente "universal", mas não obrigatório (Lei de 1827), e atendia a uma parcela muito reduzida da população: estima-se que, em 1872, apenas 10 a 15% das crianças em idade escolar frequentavam a escola. O público-alvo eram crianças de 6 a 12 anos, com duração de 4 a 5 anos e 2 a 3 horas diárias de aula. Meninos e meninas eram ensinados em turnos separados ou em espaços distintos.
As condições materiais eram precárias: escolas improvisadas, ambientes não padronizados, professores leigos ou religiosos (as escolas normais só começaram a surgir a partir de 1835). O método dominante era o da memorização — recitação de cor, ditados — e da cópia de modelos caligráficos, além da redação de "composições" com temas patrióticos ou religiosos. As punições para erros incluíam palmatórias e ajoelhar no milho. Era comum o ensino mútuo (ou monitorial), no qual alunos mais adiantados auxiliavam os demais, e o sistema multisseriado.
No campo da língua portuguesa, o currículo contemplava leitura, caligrafia e princípios gramaticais. Dois materiais didáticos merecem destaque: a Cartilha do Povo (1849) e o Método Castilho (1852), este último desenvolvido pelo escritor e pedagogo português António Feliciano de Castilho, que propunha um "ensino rápido e aprazível" da leitura.
O ensino secundário[editar]
O ensino secundário, regulado pela Lei de 1854, era elitista (restrito a liceus e colégios), com duração de 5 a 7 anos e caráter preparatório para o ensino superior. O acesso era feito por exames, e os professores tinham formação em Direito ou Filosofia. As punições eram físicas ou morais.
Nas aulas de língua portuguesa — de 3 a 4 horas semanais —, o currículo incluía Gramática, Retórica, Literatura e Latim; nos colégios de elite, acrescentavam-se Grego e Francês. As atividades incluíam leitura de textos clássicos (religiosos, cívicos e literários), leitura em voz alta, interpretação literal, redação de cartas, petições e discursos, declamação e princípios de Retórica e Estilística.
O currículo do Colégio Pedro II (Rio de Janeiro), fixado pelo Decreto n.º 8.051, de 24 de março de 1881, é um documento particularmente revelador. Ao longo dos sete anos do curso, o ensino de língua portuguesa percorria as seguintes etapas:
- Do 1.º ao 5.º ano: leitura e recitação de textos de prosadores e poetas brasileiros e portugueses de diferentes séculos (do século atual ao século XVI), com exercícios ortográficos, análise gramatical (lógica, sintática, fonética e etimológica) e composição progressivamente mais autônoma.
- No 6.º ano (Retórica, Poética e Literatura Nacional): estudo dos gêneros literários, princípios de estética, composição de lavra própria, declamação e análise de estilo; história da literatura brasileira, com juízos críticos e paralelos escritos pelos alunos.
- No 7.º ano (Português e História Literária): traços gerais de linguística; aplicação da gramática geral ao português; estudo comparativo do português com as outras línguas românicas; análise etimológica e sintática de textos arcaicos; conversão de trechos arcaicos em português moderno; história literária das línguas mortas e vivas.
É notável que o currículo do 7.º ano do Colégio Pedro II já incorporasse elementos da linguística histórico-comparativa europeia — o que revela a velocidade com que os desenvolvimentos científicos do período atravessavam o Atlântico e chegavam aos programas escolares brasileiros.
Referências bibliográficas[editar]
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- BOPP, Franz. Vergleichende Grammatik des Sanskrit, Zend, Griechischen, Lateinischen, Litauischen, Gothischen und Deutschen. Berlin: Dümmler, 1833–1852.
- BREDSDORFF, J. H. Om Aarsagerne til Sprogenes Forandringer. Kopenhagen, 1821. [Tradução inglesa: "On the Causes of Linguistic Change". In: LEHMANN, Winfred P. (org.). A Reader in Nineteenth Century Historical Indo-European Linguistics. Bloomington: Indiana University Press, 1967.]
- CARNEIRO RIBEIRO, Ernesto. Serões Grammaticaes ou Nova Grammatica Portuguesa. Salvador: Empresa do Diario da Bahia, 1890.
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