Entrevista com a escritora Ana Raja FERNANDO FIDELIX NUNES (2026) Ana Raja é uma escritora que já participou de algumas coletâneas literárias e lançou recentemente o romance “As dores delas” (2024). O livro tem conseguido alcançar prestígio com o público e com a crítica especializada, tanto que foi um dos finalistas da categoria Prêmio Brasília do Prêmio Candango de Literatura. Nesta entrevista, vamos conversar sobre aspectos estéticos de “As dores delas” e a sua recepção com o público e a crítica. Fernando Fidelix Nunes: A obra “As dores delas” apresenta um conjunto amplo de situações de opressão vivenciadas por mulheres na sociedade brasileira, como abuso sexual, silenciamento, invisibilidade e outras violências cujas raízes costumam estar associadas a sociedades patriarcais. Você poderia explicar como a sua história de vida influenciou a escrita do romance e a abordagem que ele traz? Ana Raja: Em determinado momento da minha vida, passei a considerar a escrita como um caminho possível, o que me agradava. Assim, eventualmente o livro me pareceu uma boa ideia. Sou mulher, então muitas impressões incluídas nos textos de minha autoria fazem parte das minhas vivências ou reflexões pessoais. E sempre fui boa ouvinte, atenta ao que me contavam, especialmente as mulheres, o que se tornou recorrente, quando comecei a comentar que estava escrevendo um livro. Muitas mulheres começaram a me contar suas histórias. Eu me voltei às percepções originadas por aquelas histórias, de acontecimentos cotidianos, do meu cotidiano, do cotidiano delas. Muitas vivências se encontram quando a história é sobre mulheres. A maioria de nós, acredito, já tiveram o momento em que se defender foi necessário, como ser humano e mulher. Fernando Fidelix Nunes: Desde o primeiro capítulo, a sua obra traz diversas perspectivas, principalmente femininas, para contar diferentes vivências dentro da obra. Qual é o impacto que buscou construir com esse recurso? Ana Raja: Esse impacto, ele não foi construído, aconteceu naturalmente, porque é isso, a obra chega às pessoas e elas a interpretam, abraçam uma versão própria dela. Mas enquanto eu estava construindo a trama do livro, não era questão de criar impacto, e sim de contar histórias que representassem desafios inerentes à mulher. Os temas nasceram das conversas que tive com as pessoas, e que me ajudaram a compreender, com mais profundidade, as dores de quem não é respeitado como um ser humano, tampouco como mulher. O impacto não foi construído. Eu apenas escrevi o livro. Mas acredito na força do tema. Fernando Fidelix Nunes: A sua obra não traz sinais evidentes mais tradicionais para indicar, por exemplo, o início do emprego do discurso direto, como travessões, aspas ou mesmo explicações curtas sobre as reações de cada personagem após sua fala. Como foi o processo de revisão do texto para produzir essa estética? Ana Raja: A estética não foi definida, ela aconteceu durante a escrita. Ela aconteceu, porque eu comecei a escrever e então a descobrir o ritmo que eu queria para o livro. A linguagem marcada pela cadência de uma conversa reveladora de personalidade; a intimidade das conversas entre irmãs, eu não queria a pontuação tradicional de um diálogo, mas que o leitor se sentisse naquela conversa, que se conectasse de forma a compreender a voz de cada personagem. Sabe quando tem um monte de gente conversando na casa, várias mulheres conversando, e você não está nem olhando para a interlocutora, mas a identifica pela voz? Essa é a ideia do “As dores delas”, mas também o que uso naturalmente nos meus textos. E sim, houve uma revisão, uma edição atenta, mas o critério da pontuação permaneceu, porque é a minha linguagem; como gosto de escrever e alcanço, no texto, o entendimento com o leitor. Fernando Fidelix Nunes: No Prêmio Candango de Literatura de 2025, “As dores delas” foi uma das obras finalistas na categoria “Prêmio Brasília”, destinada a pessoas nascidas em Brasília ou residentes no Distrito Federal nos últimos 2 anos. Como foi para você receber esse reconhecimento? Acredita que aumentou a visibilidade da sua obra? Ana Raja: Foi uma alegria muito grande ter o meu livro como finalista do Candango; uma honra. Minha estreia, meu primeiro romance sendo reconhecido dessa forma. Obviamente isso despertou interesse de novos leitores, enfim, aumentou a visibilidade do livro. Fernando Fidelix Nunes: O romance “As dores delas” foi lido recentemente em alguns clubes de leitura de Brasília. Qual é o papel que você acredita que esses clubes de leitura têm para fortalecer a divulgação da literatura do Distrito Federal? Ana Raja: Os clubes de leitura são essenciais, ajudam na construção do caminho do livro, “espalham” a leitura a uma abrangente diversidade de leitores. Acredito serem boas oportunidades para os escritores e para os leitores. As reuniões também são importantes. Falar sobre literatura é descobri-la um pouco mais a cada livro. Quando online, podem alcançar qualquer leitor que tenha internet, apesar da geografia. Isso é muito legal! E os presenciais são uma alegria, sabe? Para o meu livro tem sido ótimo, muito bacana. E também para minha pessoa, porque inclui aprendizado e mostra a importância da inclusão, porque livros também são mantenedores de culturas diversas, e os clubes de leituras criam espaço para eles e incentivam questionamentos e reflexões, além de promoverem um bom encontro entre escritores e leitores. Fernando Fidelix Nunes: Quais são os seus próximos projetos literários? Ana Raja: Comecei a escrever um novo romance. Novamente, minha abordagem envolve questões que precisam ser discutidas. Estou na fase das pesquisas que vão amparar os acontecimentos vividos pelos personagens. Está sendo uma viagem muito interessante. Um aprendizado.