Ao padre Manuel Domingues Loureiro que recusando ir por capelão para angola por ordem de sua ilustríssima, foi ao depois prezo, e maltratado, porque resistiu as ordens do mesmo prelado. GREGóRIO DE MATOS (1850) Gregório de Matos (1636–1696), maior nome da poesia satírica barroca no Brasil, retratou com ironia os conflitos morais e institucionais da colônia. No poema “Ao padre Manuel Domingues Loureiro…”, critica a recusa do religioso em partir para Angola e as punições sofridas, expondo tensões entre clero e autoridade episcopal. O texto circulou manuscrito no século XVII e foi publicado em livro no Rio de Janeiro, em 1850. Para esta Angola enviado vem por força do destino, um marinheiro ao divino, ou mariola sagrado: com ser no monte gerado o espírito lhe notei, que com ser besta de lei, tanto o ser vilão esconde, que vem da vila do conde morar na casa d'EI-Rei. Por não querer embarcar com ousadia sobeja atado das mãos da Igreja veio ao braço secular: a empuxões, e a gritar deu baque o Padre Loureiro: riu-se muito o carcereiro, mas eu muito mais me ri, pois nunca Loureiro vi enxertado em Limoeiro. No argumento, com que vem da navegação moral, diz bem, e argumenta mal, diz mal, e argumenta bem: porém não cuide ninguém, que com tanta matinada deixou de fazer jornada, porque a sua teima astuta o pôs de coberta enxuta, mas mal acondicionada. O Mestre, ou o capitão (diz o Padre Fr. Orelo), que há de levar um capelo, se não levar capelão: vinha branco, e negro pão diz, que no mar fez a guerra, pois logo sem razão berra, quando na passada mágoa trouxe vinho como água, e farinha como terra. Com gritos a casa atroa, e quando o caso distinga, quer vomitar na moxinga, antes que cagar na proa: querer levá-lo a Lisboa com brandura, e com carinho, mas o Padre é bebedinho, e ancorado a porfiar diz, que não quer navegar salvo por um mar de vinho. Aquentou muito a História sobre outras ações velhacas ter-lhe aborcado as patacas .- o magano do Chicória: mas sendo a graça notória, diz o Padre na estacada, que ficarão a pancada, quando um, e outro desfeche se o Loureiro de escabeche, o Chicória de selada.