Entra agora o poeta a satirizar o dito padre GREGóRIO DE MATOS (1850) Gregório de Matos (1636–1696), poeta baiano do Barroco, destacou-se pela sátira ferina aos costumes e ao clero colonial. Em “Entra agora o poeta a satirizar o dito padre”, intensifica o tom mordaz contra o padre Manuel Alvares, capelão da Marapé, explorando ironia e crítica moral. O poema circulou manuscrito no século XVII e teve publicação em livro no Rio de Janeiro, em 1850. Reverendo Padre Alvar, basta, que por vossos modos saís a campo por todos os Mariolas de altar? mal podia em vos falar, quem notícia, nem suspeita tem d’asno de tão má seita: mas como vos veio ao justo a sátira, estais com susto, de que por vós fora feita. Convosco a minha camena não fala, se vos não poupa, porque sois mui fraca roupa para alvo da minha pena: se alguém se queima, e condena, por que vê, que os meus apodos vão frisando por seus modos, ninguém os tome por si, um pelo outro isso si, que assim frisarão com todos. Vós com malícia veloz aplicai-o a um coitado, que este tal terá cuidado de vo-lo aplicar a vós: desta aplicação atroz de um por outro, e outro por um, como não livrar nenhum, ninguém do Poeta então se virá a queixar, senão do poema que é comum. Bonetes na minha mão, como os lanço ao ar direitos, caindo em vários sujeitos nuns servem, e noutros não: não consiste o seu senão, nem menos está o seu mal na obra, ou no oficial, está na torpe cabeça, que se ajusta, e endereça pelos moldes de obra tal. E pois, Padre, vos importa nos meus moldes não entrar, deveis logo endireitar a cabeça, que anda torta: mas sendo uma praça morta, e um zotíssimo ignorante vir-vos-á a Musa picante a vós, Padre mentecapto, de molde como sapato, e ajustada como um guante. Outra vez vos não metais sentir alheios trabalhos, que dirão, que comeis alhos galegos, pois vos queimais: e porque melhor saibais, que os zotes, de que haveis dor, são de abatido valor, vede nos vossos sentidos, quais serão os defendidos, sendo vós o defensor.