A Flor do Embiruçu MACHADO DE ASSIS (1875) Machado de Assis (1839–1908) é o autor de “A Flor do Embiruçu”, poema presente no livro Americanas. Nele, o poeta explora a ideia de beleza e efemeridade por meio da flor que simboliza a natureza fugaz da vida e das emoções humanas. A obra reflete sobre o confronto entre o sublime e o passageiro, unindo lirismo e filosofia de maneira única. Noite, melhor que o dia, quem não te ama?  FILINTO ELYSIO.   Quando a noturna sombra envolve a terra  E à paz convida o lavrador cansado,  À fresca brisa o seio delicado  A branca flor do embiruçu descerra.   E das límpidas lágrimas que chora  A noite amiga, ela recolhe alguma;  A vida bebe na ligeira bruma,  Até que rompe no horizonte a aurora.  Então, à luz nascente, a flor modesta,  Quando tudo o que vive alma recobra,  Languidamente as suas folhas dobra,  E busca o sono quando tudo é festa.   Suave imagem da alma que suspira  E odeia a turba vã! da alma que sente  Agitar-se-lhe a asa impaciente  E a novos mundos transportar-se aspira!   Também ela ama as horas silenciosas,  E quando a vida as lutas interrompe,  Ela da carne os duros elos rompe,  E entrega o seio às ilusões viçosas.   É tudo seu — tempo, fortuna, espaço,  E o céu azul e os seus milhões de estrelas;  Abrasada de amor, palpita ao vê-las,  E a todas cinge no ideal abraço.   O rosto não encara indiferente,  Nem a traidora mão cândida aperta;  Das mentiras da vida se liberta  E entra no mundo que jamais não mente.   Noite, melhor que o dia; quem não te ama?  Labor ingrato, agitação, fadiga,  Tudo faz esquecer tua asa amiga  Que a alma nos leva onde a ventura a chama.   Ama-te a flor que desabrocha à hora  Em que o último olhar o sol lhe estende,  Vive, embala-se, orvalha-se, recende,  E as folhas cerra quando rompe a aurora.