A Gonçalves Dias MACHADO DE ASSIS (1875) Machado de Assis (1839–1908) presta homenagem ao poeta romântico Gonçalves Dias em A Gonçalves Dias. Integrado ao livro Americanas, o poema celebra a herança literária e o ideal nacional do autor maranhense, dialogando com o indianismo e a formação da poesia brasileira, sob tom elegíaco e reverente. Ninguém virá, com titubeantes passos,  E os olhos lacrimosos, procurando  O meu jazigo...  GONÇALVES DIAS. Últimos Cantos.   Tu vive e goza a luz serena e pura. J. BASÍLIO DA GAMA. Uruguai, c. V.  Assim vagou por alongados climas,E do naufrágio os úmidos vestidosAo calor enxugou de estranhos laresO lusitano vate. Acerbas penasCurtiu naquelas regiões; e o Ganges,Se o viu chorar, não viu pousar calada,Como a harpa dos êxules profetas,A heróica tuba. Ele a embocou, vencendoCo’a lembrança do ninho seu paterno,Longas saudades e míseras tantas.Que monta o padecer? Um só momentoAs mágoas lhe pagou da vida; a pátriaReviu, após a suspirar por ela;E a velha terra suaO despojo mortal cobriu piedosaE de sobejo o compensou de ingratos. *** Mas tu, cantor da América, roubadoTão cedo ao nosso orgulho, não te coubeNa terra em que primeiro houveste o lumeDo nosso sol, achar o último leito!Não te coube dormir no chão amado,Onde a luz frouxa da serena lua,Por noite silenciosa, entre a folhagemCoasse os raios úmidos e frios,Com que ela chora os mortos... derradeirasLágrimas certas que terá na campaO infeliz que não deixa sobre a terraUm coração ao menos que o pranteie. *** Vinha contudo o pálido poetaOs desmaiados olhos estendendoPela azul extensão das grandes águas,A pesquisar ao longe o esquivo fumoDos pátrios tetos. Na abatida fronteAve da morte as asas lhe roçara;A vida não cobrou nos ares novos,A vida, que em vigílias e trabalhos,Em prol dos seus, gastou por longos anos,Co’essa largueza de ânimo fadadoA entornar generoso a vital seiva.Mas, que importava a morte, se era doceMorrê-la à sombra deliciosa e amigaDos coqueiros da terra, ouvindo acasoNo murmurar dos rios,Ou nos suspiros do noturno vento,Um eco melancólico dos cantosQue ele outrora entoara? Traz do exílioUm livro, monumento derradeiroQue à pátria levantou; ali reviveToda a memória do valente povoDos seus Timbiras... *** Súbito, nas ondasBate os pés, espumante e desabrido,O corcel da tormenta; o horror da morteEnfia o rosto aos nautas... Quem por ele,Um momento hesitou quando na frágilTábua confiou a única esperançaDa existência? Mistério obscuro é esseQue o mar não revelou. Ali, sozinho,Travou naquela solidão das águasO duelo tremendo, em que a alma e corpoAs suas forças últimas despendemPela vida da terra e pela vidaDa eternidade. Quanta imagem torva,Pelo turbado espírito batendoAs fuscas asas, lhe tornou mais tristeAquele instante fúnebre! SuaveÉ o arranco final, quando o já frouxoOlhar contempla as lágrimas do afeto,E a cabeça repousa em seio amigo.Nem afetos nem prantos; mas somenteA noite, o medo, a solidão e a morte.A alma que ali morava, ingênua e meiga,Naquele corpo exíguo, abandonou-o,Sem ouvir os soluços da tristeza,Nem o grave salmear que fecha aos mortosO frio chão. Ela o deixou, bem comoHóspede mal-aceito e maldormido,Que prossegue a jornada, sem que leveO ósculo da partida, sem que deixeNo rosto dos que ficam — rara embora —Uma sombra de pálida saudade. *** Oh! sobre a terra em que pousaste um dia,Alma filha de Deus, ficou teu rastoComo de estrela que perpétua fulge!Não viste as nossas lágrimas; contudoO coração da pátria as há vertido.Tua glória as secou, bem como orvalhoQue a noite amiga derramou nas floresE o raio enxuga da nascente aurora.Na mansão a que foste, em que ora vives,Hás de escutar um eco do concertoDas vozes nossas. Ouvirás, entre elas,Talvez, em lábios de indiana virgem!Esta saudosa e suspirada nênia: *** “Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros!Virgens da mata, suspirai comigo!A grande água o levou como invejosa.Nenhum pé trilhará seu derradeiroFúnebre leito; ele repousa eternoEm sítio onde nem olhos de valentes,Nem mãos de virgens poderão tocar-lhesOs frios restos. Sabiá-da-praiaDe longe o chamará saudoso e meigo,Sem que ele venha repetir-lhe o canto.Morto, é morto o cantor de meus guerreiros!Virgens da mata, suspirai comigo! *** Ele houvera do Ibaque o dom supremoDe modular nas vozes a ternura,A cólera, o valor, tristeza e mágoa,E repetir aos namorados ecosQuanto vive e reluz no pensamento.Sobre a margem das águas escondidas,Virgem nenhuma suspirou mais terna,Nem mais válida a voz ergueu na taba,Suas nobres ações cantando aos ventos,O guerreiro tamoio. Doce e forte,Brotava-lhe do peito a alma divina.Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros!Virgens da mata, suspirai comigo! *** Coema, a doce amada de Itajubá,Coema não morreu; a folha agrestePode em ramas ornar-lhe a sepultura,E triste o vento suspirar-lhe em torno;Ela perdura a virgem dos Timbiras,Ela vive entre nós. Airosa e linda,Sua nobre figura adorna as festasE enflora os sonhos dos valentes. Ele,O famoso cantor quebrou da morteO eterno jugo; e a filha da florestaHá de a história guardar das velhas tabasInda depois das últimas ruínas.Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros!Virgens da mata, suspirai comigo! *** O piaga, que foge a estranhos olhos,E vive e morre na floresta escura,Repita o nome do cantor; nas águasQue o rio leva ao mar, mande-lhe ao menosUma sentida lágrima, arrancadaDo coração que ele tocara outrora,Quando o ouviu palpitar sereno e puro,E na voz celebrou de eternos carmes.Morto, é morto o cantor dos meus guerreiros!Virgens da mata, suspirai comigo!”