Cantiga do rosto branco MACHADO DE ASSIS (1875) Machado de Assis (1839–1908) é o autor de “Cantiga do Rosto Branco”, poema do livro Americanas, em que explora o universo indígena idealizado, o amor e a contemplação da beleza feminina. O texto combina musicalidade, lirismo e exotismo romântico, dialogando com o indianismo literário do século XIX, reinterpretado com sobriedade e refinamento formal. Rico era o rosto branco; armas trazia,E o licor que devora e as finas telas;Na gentil Tibeima os olhos pousa,E amou a flor das belas. “Quero-te!” disse à cortesã da aldeia;“Quando, junto de ti, teus olhos miro,A vista se me turva, as forças perco,E quase, e quase expiro.” E responde a morena requebrandoUm olhar doce, de cobiça cheio:“Deixa em teus lábios imprimir meu nome;Aperta-me em teu seio!” Uma cabana levantaram ambos,O rosto branco e a amada flor das belas...Mas as riquezas foram-se co’o tempo,E as ilusões com elas. Quando ele empobreceu, a amada moçaNoutros lábios pousou seus lábios frios,E foi ouvir de coração estranhoAlheios desvarios. Desta infidelidade o rosto brancoTriste nova colheu; mas ele amava,Inda infiéis, aqueles lábios doces,E tudo perdoava. Perdoava-lhe tudo, e inda corriaA mendigar o grão de porta em porta,Com que a moça nutrisse, em cujo peitoJazia a afeição morta. E para si, para afogar a mágoa,Se um pouco havia do licor ardente,A dor que o devorava e renasciaMatava lentamente. Sempre traído, mas amando sempre,Ele a razão perdeu; foge à cabana,E vai correr na solidão do bosqueUma carreira insana. O famoso Sachem, ancião da tribo,Vendo aquela traição e aquela pena,À ingrata filha duramente fala,E ríspido a condena. Em vão! É duro o fruto da papaia,Que o lábio do homem acha doce e puro;Coração de mulher que já não amaEsse é inda mais duro. Nu qual saíra do materno ventre,Olhos cavos, a barba emaranhada,O mísero tornou, e ao próprio tetoVeio pedir pousada. Volvido se cuidava à flor da infância(Tão escuro trazia o pensamento!)“Mãe!” exclamava contemplando a moça,“Acolhe-me um momento!” Vinha faminto. Tibeima, entanto,Que já de outro guerreiro os dons houvera,Sentiu asco daquele que outro tempoAs riquezas lhe dera. Fora o lançou; e ele expirou gemendoSobre folhas deitado junto à porta;Anos volveram; co’os volvidos anos,Tibeima era morta. Quem ali passa, contemplando os restosDa cabana, que a erva toda esconde,Que ruínas são essas, interroga.E ninguém lhe responde.