A visão de Jaciúma MACHADO DE ASSIS (1875) Machado de Assis (1839–1908) apresenta, no poema A visão de Jaciúca, uma composição de inspiração indígena, marcada pelo tom épico-lírico e pela evocação mítica da natureza e do sagrado. Publicado no livro Americanas, o poema integra o momento em que o autor dialoga com temas históricos e nativistas, reelaborando-os com rigor formal e sensibilidade poética. Où sont ces âmes guerrières... et ces arcs    Qu’on ne vit jamais tendus en vain?  BOSSUET: Orais. fun. de la princesse Palatine.   Prestes de novo a batalhar, chegavamOs valentes guerreiros. Mas onde ele,O duro chefe da indomável tribo,O senhor das montanhas? AfirmavaTatupeba que o vira, antes da aurora,Erguer-se, e ao longo do vizinho rio,Por algum tempo caminhar calado,Como se o abafara um pensamentoE lhe impedira o sono. Vão receioDe batalhar? Oh! não! Quase na infância,A torva catadura viu da guerra,Ofício de homens, que aprendeu brincandoCom seu pai, extremado entre os guerreiros,E na bravura e na prudência; a frechaNinguém soubera menear como ele,Nem mais veloz, nem mais certeira nunca. *** A lentos passos caminhando chega,Enfim, o bravo Jaciúca. TorvoE merencório traz o duro aspecto.“— Vamos (diz ele) a descansar na taba,Entre festas e danças; penduremosAs armas nossas, que sobeja há sidoA glória, e a doce paz nos chama.”Leve,Surdo rumor entre os guerreiros soa;Vai subindo, é rugido, é já tumulto,Como o grunhir de tajaçus no mato,Que se aproxima e cresce. JaciúcaOlhos quietos pelo campo estende;Seu feio rosto é como a rocha duraQue o raio quebra, mas não lasca o vento.Fecha os lábios e pensativo espera. ***Tatupeba, que a raiva a custo esconde,Ergue-se então; crava-lhe os fulvos olhos,Como a afiada ponta de uma frecha.Seu porte, entre os irmãos, semelha à vistaJequitibá robusto; mais que todos,Terror inspira e universal respeito.Ergue-se e fala: “— Longos sóis hei visto,Pelejei muitas guerras; a meu ladoVi cair mais valentes do que folhasArranca o furacão; mas nunca o ânimoDos lidadores abalou a palavraComo essa tua; nunca os braços nossosFicar deixaram nos desertos camposOs ossos não vingados dos guerreiros.Que gênio mau te insinuou tal crime?”Assim falando, Tatupeba o soloCom a planta feriu. Os olhos todosPendem da boca do sombrio chefe.Silencioso Jaciúca ouviraAs falas do guerreiro; silenciosoE quieto ficou. Após instantes,A fronte sacudiu, como expelindoIdéias más que o cérebro lhe turvam,E a voz lhe rompe do íntimo do peito.*** “Ó guerreiros (diz ele), aqui deitadosEstivestes a noite, e toda inteiraA dormistes de certo; eu, não distante,Do rio à marge* a trabalhar comigo,Afiava na mente atra vingança;Até que os frouxos membros descaíramSobre a macia relva, e um tempo largoAssim fiquei entre vigília e sono.Viam meus olhos ondular as águas,Mas no alheado pensamento os ecosSussurravam da infância. Um gênio amigoAos tempos me levava em que no rostoDe meu pai aprendi, com frio pasmo,A rara intrepidez, válida herança,Que tanto custa ao pérfido inimigo. *** De repente, uma luz pálida e tristeInunda o campo: transparente névoaE luminosa aquilo parecia,Ou baço refletir da branca luaQue nuvens cobrem. Lívido e curvado,Içaíba a meus olhos aparece.Vi-o qual era antes da fria morte;Só a expressão do rosto lhe mudara;Enérgicas não tinha, mas serenasAs feições. “Vem comigo!”* Assim me falaO extinto bravo; e , súbito estreitandoAo peito o corpo do saudoso amigo,Juntos voamos à região das nuvens.“Olha!” disse Içaíba, e o braço alongaPara a terra. Ó guerreiros! largo espaçoEra presa de alheio senhorio.Fitei os olhos mais; e pouco a pouco,Como enche o rio e todo o campo alaga,Umas gentes estranhas se estendiamDe sertão em sertão. Presas do fogoAs matas vi, abrigo do guerreiro,E ao torvo incêndio e às invasões da morteVi as tribos fugir, ceder a custo,Com lágrimas alguns, todos com sangue,A virgem terra ao bárbaro inimigo.Mau vento os trouxe de remota praiaAqueles homens novos, jamais vistosDe guerreiro ancião, a quem não coubeSequer a glória de morrer contenteE todo reviver na ousada prole.Era o termo da vida que chegaraAo povo de Tupã! Grito de morteÚnico enchia os ares — um suspiroDe tristeza e terror, que reboavaPelos recessos da floresta antigaE talvez ameigava o peito às feras...Surdos manitôs deixado haviamOs seus fortes heróis; surdos se foramEntre os gênios folgar da raça nova,E rir talvez das lágrimas choradasPelo olhos das virgens... Oh! se ao menosFora pranto de livres! Era a morteA menor das angústias; vi curvadaE cativa rojar no pó da terraA fronte do guerreiro, agora altiva,Livre, como o condor que frecha as nuvens;Não canitar a cinge, mas vergonha,Melancólico adorno do vencido. *** “O rosto desviei do estranho quadro.‘Olha!’ repete o pálido Içaíba.Olhei de novo, e na saudosa taba,Que os nossos arcos defender souberam,Em vez da sombra do piaga santo,Que, ao som do maracá, colhia as vozesDo pensamento eterno, e as infundiaNo seio do guerreiro, como o fumoDo petum lhe dobrava ímpeto e força,Um vulto descobri de vestes negras,Nua quase a cabeça, e cor de espumaAlguns cabelos raros. Tinha o rostoAlvo e quieto. Em suas mãos sustinhaExtenso lenho com dois curtos braços.Ia só; todo o campo era deserto.Nem um guerreiro! um arco! ‘— A tribo?’‘— Extinta.’ *** “A tal palavra, uma pesada sombraA vista me apagou, e pela faceSenti rolar a lágrima primeira.O sinistro espetáculo mudara.Ao dissipar-se a nuvem de meus olhosAchei-me junto do vizinho rio,Reclinado como antes, e defronteA pálida figura de Içaíba.‘— Torna à taba’, me disse o extinto moço;‘Luas e luas volverão no espaçoAntes da morte, mas a morte é certa,E terrível será. Nação bem outra,Sobre as ruínas da valente raçaVirá sentar-se, e brilhará na terraGloriosa e rica. Uma chorada lágrima,Talvez, talvez, no meio dos triunfos*Há de ser a tardia, escassa pagaDa morte nossa. Poupa ao menos essaDerradeira esperança de guardá-loTodo o valor para o supremo diaE com honra ceder a estranhas hostes;Salva ao menos as últimas relíquiasDesta nação vencida; não se rasguemPeitos que irmãos ao mesmo sol nasceramE Anhangá fez contrários22 ...Todos elesPoucos serão para a tremenda luta,Mas de sobra hão de ser para chorá-la.’* *** “Assim falara o pálido Içaíba;Alguns instantes contemplou meu rosto,Calado e firme. A cachoeira ao longeInterrompia apenas o silêncio;E eu morto, eu mesmo me sentia morto.Ele um triste suspiro magoadoSoltou do peito; os apagados olhosÀs estrelas ergueu, sereno e triste,E de novo rompendo o vôo aos ares,Como uma frecha penetrou nas nuvens.”