José Bonifácio MACHADO DE ASSIS (1875) Machado de Assis (1839–1908) homenageia, no poema José Bonifácio, a figura histórica do Patriarca da Independência. Publicado originalmente no livro Americanas, o poema exalta virtudes cívicas, o ideal de nação e a memória fundadora do Brasil, integrando a fase em que o autor dialoga com temas históricos e identitários da literatura romântica brasileira. De tantos olhos que o brilhante lumeViram do sol amortecer no ocaso,Quantos verão nas orlas do horizonteResplandecer a aurora? Inúmeras, no mar da eternidade,As gerações humanas vão caindo;Sobre elas vai lançando o esquecimentoA pesada mortalha. Da agitação estéril em que as forçasConsumiram da vida, raro apenasUm eco chega aos séculos remotos,E o mesmo tempo o apaga. Vivos transmite a popular memóriaO gênio criador e a sã virtude,Os que o pátrio torrão honrar souberam,E honrar a espécie humana. Vivo irás tu, egrégio e Nobre Andrada!Tu, cujo nome, entre os que à pátria deramO batismo da amada independência,Perpetuamente fulge. O engenho, as forças, o saber, a vidaTudo votaste à liberdade nossa,Que a teus olhos nasceu, e que teus olhosInconcussa deixaram. Nunca interesse vil manchou teu nome,Nem abjectas paixões; teu peito ilustreNa viva chama ardeu que os homens levaAo sacrifício honrado. Se teus restos há muito que repousamNo pó comum das gerações extintas,A pátria livre que legaste aos netos,E te venera e ama, Nem a face mortal consente à morteQue te roube, e no bronze redivivoO austero vulto restitui aos olhosDas vindouras idades. “Vede” (lhes diz) “o cidadão que teveLarga parte no largo monumentoDa liberdade, a cujo seio os povosDo Brasil te acolheram Pode o tempo varrer, um dia, ao longe,A fábrica robusta; mas os nomesDos que o fundaram viverão eternos,E viverás, Andrada!”