Ao cura da Sé que era naquele tempo, introduzida ali por dinheiro, e com presunções de namorado; satiriza o poeta como criatura do prelado GREGóRIO DE MATOS (1696) Poema satírico atribuído a Gregório de Matos, provavelmente composto na Bahia no fim do século XVII. Preservado em manuscritos coloniais e publicado apenas em edições críticas modernas, denuncia com ironia a nomeação comprada de um cura da Sé e suas vaidosas pretensões. O Cura, a quem toca a curade curar esta cidade,cheia a tem de enfermidadetão mortal, que não tem cura:dizem, que a si só se curade uma natural sezão, que lhe dá na ocasiãode ver as Moças no eirado,com que o Cura é o curado,e as Moças seu cura são. Desta meizinha se argüi,que ao tal Cura assezoadomais lhe rende o ser curado,que o Curado, que possui,grande virtude lhe influio curado exterior:mas o vício interiorAmor curá-lo procura,porque Amor todo loucura,se a cura é de louco amor. Disto cura o nosso Cura,porque é curador maldito,mas ao mal de ser cabritonunca pôde dar-lhe cura:É verdade, que a tonsurameteu o Cabra na Sé,e quando vai dizer "TeDeum laudamus" aos doentes,se lhe resvale entre dentes,e em lugar de Te diz me. Como ser douto cobiça,a qualquer Moça de jeitoonde pôs o seu direito,logo acha, que tem justiça:a dar-lhe favor se atiça,e para o fazer com arte,não só favorece a parte,mas toda a prosápia má,se justiça lhe não dá,lhe dá direito, que farte. Porque o demo lhe procuratecer laços, e urdir teias,não cura de almas alheias,e só do seu corpo cura:debaixo da capa escurade um beato capuchinhoé beato tão malignoo cura, que por seu malcom calva sacerdotalé sacerdote calvino. Em um tempo é tão velhaco,tão dissimulado, e tanto,que só por parecer santocanoniza em santo um caco:se conforme o adágio fraconinguém pode dar, senãoaquilo, que tem na mão,claro está que no seu tantonão faria um ladrão santo,senão um Santo Ladrão. Estou em crer, que hoje em diajá os cânones sagradosnão reputam por pecadospecados de simonia:os que vêem tanta ousadia,com que comprados estãoos curados mão por mão,devem crer, como já creram,que ou os cânones morreram,ou então a Santa unção.