A magnificência com que os moradores daquela vila receberam o dito senhor com vários artifícios de fogo por mar e terra concorrendo para a despesa o vigário GREGóRIO DE MATOS (1696) Poema encomiástico atribuído a Gregório de Matos, composto provavelmente na Bahia no final do século XVII. Transmitido apenas por manuscritos e publicado em edições críticas modernas, descreve a recepção festiva ao prelado, celebrada com fogos por mar e por terra. Apareceram tão belasno mar canoas, e truzes,que se o céu é mar de luzes,o mar era um céu de estrelas:era uma armada sem velasmovida de outro elemento,era um prodígio, um portentover com tanto desafogoesta navegar com fogo,se outras arribam com vento. Sua Ilustríssima estavaassustado sobre absorto,porque via um rio mortoo fogo, em que se abrasava:grande cuidado Ihe dava ver,que o mar morria entãoinfamado na opinião,e como um judeu queimado,sendo, que o mar é sagrado,que inda é mais que ser cristão. Lá no vale ardia o ar,e por ser, comua a guerra,no mar há fogo de terra,na terra há fogo do mar:toda a esfera a retumbarfazia correspondência,e com alegre aparêncialuzia na ardente empresafogo do ar por alteza,e do mar por excelência. Em cima as rodas paravam,que varia a fortuna todadesandava a sua roda,e as do fogo não paravam:os mestres se envergonhavam,que era Lourenço, e Diogo:e eu vi, que a Lourenço logoa face se quebrantava,com que a mim mais me queimavao seu rosto, que o seu fogo. Deu-se fogo em conclusãoa uma roda de encomenda,foi como a minha fazenda,que ardeu num abrir de mão:estava em meio do chãoum rasto, para que ardesseuma câmara, e parece,que uma faísca caiu,disparou: quem jamais viu,que o fogo em câmeras desse. Era grande a multidãodo Clero, e dos Seculares,que a graça destes folgaresconsiste na confusão:Sua llustríssima entãose foi, que o fogo não zomba,aqui queima, ali arromba:segue-lhe o vigário os trilhos,que as rodas não tinham filhosmas pariam muita bomba. A gente ficou pasmada,porque viu a gente toda,que era a resposta da rodade bombarda respostada:ficou a turba enganada,porque enfim nos perturbar-nos:mas todos nos alegramos,que isto somos, e isso fomos,que então alegres nos pomosquando mais nos enganamos. Entre o desar, e entre o riscoa noite alegre passou:que mais noite! se a gabouté o Padre São Francisco:nas mais paróquias foi cisco,foi sombra, foi ar, foi nadado nosso Prelado a entrada,e a desconfiança é vãde o Cura ter bolsa chã,se a vontade é tão sobrada.