Anhangabaú MáRIO DE ANDRADE (1922) "Anhangabaú" compõe o livro Paulicéia Desvairada, marco da poesia modernista, escrito por Mário de Andrade (1893–1945). A obra explora a São Paulo da década de 1920, abordando a rápida urbanização, as contradições sociais e o ritmo acelerado da metrópole sob uma perspectiva vanguarda e libertária. Foi publicada originalmente em 1922, em São Paulo, e traz o famoso "Prefácio Interessantíssimo", que convida o leitor a romper com as formas tradicionais da literatura. Parques do Anhangabaú nos fogaréus da aurora... Oh larguezas dos meus itinerários... Estátuas de bronze nu correndo eternamente, num parado desdém pelas velocidades... O carvalho votivo escondido nos orgulhos do bicho de mármore parido no Salon... Prurido de estesias perfumando em rosais o esqueleto trêmulo do morcego... Nada de poesia, nada de alegrias!... E o contraste boçal do lavrador que sem amor afia a foice... Estes meus parques do Anhangabaú ou de Paris, onde as tuas águas, onde as mágoas dos teus sapos? “Meu pai foi rei! — Foi. — Não foi. — Foi. — Não foi." Onde as tuas bananeiras? Onde o teu rio frio encanecido pelos nevoeiros, contando histórias aos sacis?... Meu querido palimpsesto sem valor! Crônica em mau latim cobrindo uma écloga que não seja de Virgílio!...