Natal MáRIO DE ANDRADE (1917) Escrito por Mário de Andrade (1893–1945), um dos expoentes do Modernismo brasileiro, o poema "Natal" compõe a obra "Há uma gota de sangue em cada poema", que reflete as angústias e brutalidades da Primeira Guerra Mundial. Com um tom pacifista e comoção humanitária, o texto denuncia a violência, as ruínas e as "hecatombes monstruosas" do conflito. Uma leitura visceral e indispensável sobre as dores do mundo. Natal… Hora de sinos badalando, de neve branquecendo pinheirais; hora de pés de criancinhas arrastando pela brancura lisa do caminho; hora do cândido velhinho… – Em Reims, os sinos não badalam mais! A neve, sempre a mesma, cai, continua de cair; e o vento – bruscas rajadas brancas – se desfralda, como túnica de avantesma, rasgando-se à desmantelada espalda do grande, velho monumento… – Em Reims, os sinos não badalam mais! Pelas ruas escurecidas andam caladamente os grupos uniformes… Não tem mais galas o natal! apenas no trabalhar dos hospitais, tratam da cura de feridas de hediondas chagas e lesões enormes, alvas mulheres silenciosas e serenas… Natal… Mas não há luzes nas capelas!… Nem pratas de lavrados castiçais onde luziluzam as velas!… Natal… Mas não há longas espirais de incenso, a se enroscar pelos altares!… No colo virgem de Maria, junto dos anjos tutelares, rindo, estendendo seus bracinhos nus, nem se lembraram – quem se lembraria! – nem se lembraram de repor Jesus!… – Em Reims, os sinos não badalam mais! Num silêncio de múmia, brancacenta, a noite corre… Batem doze badaladas. Onde estão as canções desabaladas dos sinos gárrulos?… – Friorenta, a grande catedral emudeceu: e para ela a alegria dos natais, toda a alegria dos natais morreu!… – Em Reims, os sinos não badalam mais!…