Devastação MáRIO DE ANDRADE (1917) Escrito por Mário de Andrade (1893–1945), um dos expoentes do Modernismo brasileiro, o poema "Devastação" compõe a obra "Há uma gota de sangue em cada poema", que reflete as angústias e brutalidades da Primeira Guerra Mundial. Com um tom pacifista e comoção humanitária, o texto denuncia a violência, as ruínas e as "hecatombes monstruosas" do conflito. Uma leitura visceral e indispensável sobre as dores do mundo. Já foi aqui a civilização. Brilhou a luz. Cantou a fé. Riu o trabalho. – Mas no rebanho há-de haver sempre algum tresmalho: tresmalhou a afeição; e veio a derrocada. Seguindo os largos rios nos seus cursos, nas faldas da cadeia abruta e torturada, junto ao primeiro roble secular, muito antes, tinham vindo os homens se agrupar, na defesa comum contra as renas e os ursos. – E a esperança brilhou, como sempre, a primeira. Conseguiram vencer. O último urso brama, e rebenta-lhe o crânio o machado de pedra… Já pascem, junto ao lar, domesticadas renas; o homem pensa em plantar, e o terreno se redra… Enfim, na encantação de amplas tardes serenas, – canta no alqueive o rouxinol, a terra cheira – ao convívio do bem-estar, o homem pode mirar a companheira e colocá-la num andor… E quando, pelas manhãs claras, avoaçou a calhandra sobre as searas, houve searas também, plantadas pelo amor. – E o amor brilhou em cada lar. Pelo trabalho, pelo engenho o homem procura fortificar então sua ventura. É só lançar a mão: e mais, e mais, grassa na concha dos convales calmos a poesia alourada dos trigais… …É só lançar a voz: e sobre o monte, e sobre o vale, e no horizonte, e em toda parte lhe respondem outras vozes… Sobem os fumos pelo céu – que ao fogo já se derretem os metais – já se não temem animais ferozes; tudo é progresso!… Então, reunidos no sopé da cadeia, a cantar, como em glórias e salmos, soltam aos ares o primeiro rogo… – E rebrilhou a fé. Cria-se o livro. Os homens pensam. Pensam e agitam-se em tumulto. Por sobre os seus trabalhos paira a benção: e todos os trabalhos tomam vulto; O saber suspicaz penetra o alto segredo da vida. É tudo um labutar de ciência. O homem afoita-se, descobre, perde o medo… – E brilha, altiva e forte, a inteligência. E ele atinge afinal o cume do Jungfrau. Olha em redor e vê, na campina tamanha, uma herança que é sua e que se perde além: e tem um pensamento mau. Ele atingiu o cume da montanha! Só ele é grande, mais ninguém! Cogita, e se entremeia em labirintos de sofismas agudos; e, infeliz! diz tudo o que não pensa ou que não sente, mas o que sente ou pensa nunca diz. Constrói teorias, alevanta em plintos novo ideal, que lhe é Deus; e, indiferente encara o mundo e nada o maravilha… – E o orgulho máximo e insensato, brilha. Vem a rivalidade, a traição, a mentira, o exagero da glória, a negação da falta; Caim mata de novo Abel, – mas por mais alta que sobressaia a eterna voz, aos seus ouvidos não há voz que fira! – Mesmos os Abéis tornaram-se Cains; e os homens todos, na avareza atroz, ganiram, defendendo os bens, como mastins… A afeição tresmalhou. E no esterco fecundo de mil invejas e ambições, abrolha a flor de púrpura da guerra… E o mundo todo, a tremer nos seus arcanos olha. Nesse ponto do globo, onde o passado viu continuar, em surto resplendente, as civilizações do antigo oriente, nas águas batismais das energias novas, tudo é um imenso plaino devastado! O homem voltou ao seu estado primitivo: blasfema, odeia, trai, e sepulta-se vivo em trincheiras, sinistras como covas… Cruza os espaços, rebentando, atroa a cólera do obus; e no arruído, no choque e na fumaça, a civilização perde a coroa, e treme, e foge, e tomba e se espedaça, desertando da grande luz!… Diante de tanto mal e tanta ruína, de tanta inveja parda e estulta, diante desse ódio frio e cru, pálida, imóvel, trágica e divina, sobre a devastação que cresce e avulta, surgiu a minha dor, como um mármore nu. Surgiu, cresceu, e, imensamente branca, com o branco triste dos enfermos, na compunção atroz do seu sofrer, a minha dor sem lágrimas, nos ermos onde o último eco dos canhões estanca, gelou o íntimo gesto e nada quis dizer. Apenas, a sorrir, num sorriso que punge, pálida, imóvel, trágica e divina, olha sem ver para a devastação… A esperança talvez lhe santifica e unge o olhar, mas o sorriso, o sorriso que a mina, trai o penoso fel duma desilusão.