Espasmo MáRIO DE ANDRADE (1917) Escrito por Mário de Andrade (1893–1945), um dos expoentes do Modernismo brasileiro, o poema "Espasmo" compõe a obra "Há uma gota de sangue em cada poema", que reflete as angústias e brutalidades da Primeira Guerra Mundial. Com um tom pacifista e comoção humanitária, o texto denuncia a violência, as ruínas e as "hecatombes monstruosas" do conflito. Uma leitura visceral e indispensável sobre as dores do mundo. Ele morre. E tam só! Move-se e chama. Quer chamar: sai-lhe a voz quase sumida; e pelo esforço, sobre o chão de grama jorra mais sangue da ferida… Vai morrer… Angustiado, a noite inteira, – noite encantada dum estio morno – viu o tempo seguir entre as horas caladas; nem percebeu a Lua cálida e trigueira, com mil clarões afuzilando em torno; e o broche colossal das estrelas douradas! Olha agora. A alvorada começa de brilhar nos longes glabros. Perto, galhos de arbustos sonolentos, onde a luz se dissolve na orvalhada, são como verdes candelabros, confortando-lhe os últimos momentos… Estira os braços… Os odores, em revoada puríssima e louçã, sobem, cantantes, multicores, cheios da força nova da manhã… Ele pudera ouvir, caindo, quando o estilhaço lhe rasgara o abdômen, as joviais ovações dos seus soldados, e, na fugida, os inimigos dizimados, e os seus, em fúria, os perseguindo… – E não restara um homem. Depois, reviu os seus, a procurá-lo, – altos lamentos pela noite clara… Por pouco o não pisara a pata dum cavalo! Quis gritar, mas não pôde. E, único gesto que abriu, foi um desfiar de lágrimas, silente; e, olhos febris, rosto congesto, viu seus ulanos partirem tristes, tristemente… E os passarinhos riem desumanos… Sobem aos ares os primeiros hinos, num triunfal e transbordante surto; e em cima dele, com seus pios cristalinos, libra uma cotovia o vôo curto… Vai expirar. Já, numa ardência louca, sente a sede da febre que o acabrunha… Vai expirar… Mas só o estio o testemunha, e a abelha matinal que lhe zumbe na boca… E Gretchen? a rosada companheira de dez meses apenas! e o filhinho que está para nascer por esses dias?… – Tantas quenturas de lareira! tanto aconchego de seu ninho! tanto amor! tantas alegrias!… Principiavam ao longe os roncos e os estouros… Vincou desoladoramente a fronte. Morreu sozinho. Mas o sol, lá do horizonte, pôs o espasmo da luz nos seus cabelos louros.