Primavera MáRIO DE ANDRADE (1917) Escrito por Mário de Andrade (1893–1945), um dos expoentes do Modernismo brasileiro, o poema "Primavera" compõe a obra "Há uma gota de sangue em cada poema", que reflete as angústias e brutalidades da Primeira Guerra Mundial. Com um tom pacifista e comoção humanitária, o texto denuncia a violência, as ruínas e as "hecatombes monstruosas" do conflito. Uma leitura visceral e indispensável sobre as dores do mundo. Fora desmantelado, quando, golfando pela fauce aberta o atestado dos órfãos e das viúvas, um grande obus lhe rebentara ao lado… No modesto recanto do jardim da aldeia miserável e deserta, na sua herança má de mudo e eterno, estático e sem fim, viu, no outono, morrer o sol das chuvas, entrajou-se de neve em pleno inverno; e agora, à sussurrante primavera mostra no beiço o riso do jasmim… Converteu-se. Sorriu à natureza; perdoou a rabugice ao vento sul; e, no êxtase imortal – Santa Teresa da primavera – ele olha esperançosamente, essa visão seráfica e esplendente, a claridade mágica do azul… Na culatra soaberta, onde altos estampidos gerara a bala estrepitosa e fera, fizeram ninho as andorinhas… Culatra! – geradora de gemidos, geradora de implumes avezinhas!… Cobre-lhe uma roseira o desnudo cinismo. Tem a benção do luar, nas noites perfumosas. Vem ungi-lo às manhãs o sol de abril. E o canhão convertido, odorante e gentil, na imota unção de seu catolicismo, ouve o Te Deum das abelhas sobre as rosas…