Refrão de Obus MáRIO DE ANDRADE (1915) Escrito por Mário de Andrade (1893–1945), um dos expoentes do Modernismo brasileiro, o poema "Refrão de Obus" compõe a obra "Há uma gota de sangue em cada poema", que reflete as angústias e brutalidades da Primeira Guerra Mundial. Com um tom pacifista e comoção humanitária, o texto denuncia a violência, as ruínas e as "hecatombes monstruosas" do conflito. Uma leitura visceral e indispensável sobre as dores do mundo. Partir pelo ar, atravessar girando o ambiente perfumado do verão. Sentir o vento novo e brando; no ímpeto da carreira, perfumar-se e abrandar-se à viração!… Partir, com o íntimo esforço, velozmente: ver na campina a última leira, rasgada pelo último arado, aberta a boca mansa, esperar a semente!… Partir, ouvindo os passarinhos, que despertara a cotovia, musicar, lado a lado, o êxtase florescido dos caminhos!… Ó! como é bom partir, subindo!… Sob a palpitação da madrugada fria, à ovação triunfal do dia infante e lindo ó! como é bom partir subindo!… Partir, alimentando um desejo de escol; partir, subindo pelo espaço para o sol!… Mas na suprema glória de subir, sentir que as forças vão faltar: e retornar de novo para a terra; e servir de instrumento numa guerra; e rebentar, e assassinar!…