Epitalâmio MáRIO DE ANDRADE (1917) Escrito por Mário de Andrade (1893–1945), um dos expoentes do Modernismo brasileiro, o poema "Epitalâmio" compõe a obra "Há uma gota de sangue em cada poema", que reflete as angústias e brutalidades da Primeira Guerra Mundial. Com um tom pacifista e comoção humanitária, o texto denuncia a violência, as ruínas e as "hecatombes monstruosas" do conflito. Uma leitura visceral e indispensável sobre as dores do mundo. É sempre assim. De manhãzinha, braço dado, nos jardins claros do hospital, ele mancando, a ela apoiado, silenciosos, lado a lado, dão o passeio matinal. E, vagarosamente, se entranhando no perfume vermelho da manhã, ela vem triste, como que sonhando, – ela, que é sã – e ele, – o ferido – traz sorrisos francos, vem assobiando entre seus lábios brancos uma valsa alemã… E no fundo do parque redolente, onde tudo é perfume e som, sentam-se e dizem, já maquinalmente: “Êtes-vous las?” – “Oh! non!” Então ele, com sua voz quebrada, vendo o sol que no longe aponta, entrando sorrateiro sob a touca, brincar entre os cabelos brunos dela, pela décima vez conta e reconta como o prenderam e feriram pela tardinha, ao proteger a retirada dos seus soldados. Ela, dedos febris entrelaçados, bebe o reconto que lhe sai da boca. E ele lembrando, sem vanglória, o heroísmo que praticou, a vê chorar… Então se arrasta para junto dela, pergunta-lhe a razão do seu mutismo, pede-lhe as mãos para beijar… – “Porquoi pleures tu?” – “Moi!” – “Mais oui!…” E no seu colo se debruça, cola-lhe a boca às mãos; e enquanto ele soluça, agora, ela sorri. É sempre assim… Mas ao voltar, vem resplendendo nela o beijo nas mãos, nele a esperança… Voltam pelos meandros do jardim, e ela vem rubra, que ele vem dizendo quanto acha lindas as manhãs de França…