Mas para que me comparar com uma flor, se eu sou eu FERNANDO PESSOA (1814) Este texto faz parte dos "Poemas Inconjuntos" (escritos entre 1913 e 1930), conjunto que reúne a produção dispersa de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Mas para que me comparar com uma flor, se eu sou eu E a flor é flor? Ah, não comparemos cousa nenhuma; olhemos. Deixemos analogias, metáforas, símiles. Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa. Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela. Cada coisa só lembra o que é E só é o que nada mais é. Separa-a de todas as outras o facto de que é ela. (E as outras não serem ela) Tudo é nada ser outra coisa que não é. O quê? Valho mais que uma flor Porque ela não sabe que tem cor e eu sei, Porque ela não sabe que tem perfume e eu sei, Porque ela não tem consciência de mim e eu tenho consciência dela? Mas o que tem uma coisa com a outra Para que seja superior ou inferior a ela? Sim, tenho consciência da planta e ela não a tem de mim. Mas se a forma da consciência é ter consciência, que há nisso? A planta, se falasse, podia dizer-me: E o teu perfume? Podia dizer-me: Tu tens consciência porque ter consciência é uma qualidade humana. E eu não tenho consciência porque sou flor, não sou homem. Tenho perfume e tu não tens, porque sou flor...