Elegia MACHADO DE ASSIS (1864) “Elegia” de Machado de Assis é lamento fúnebre dedicado à memória de uma jovem falecida precocemente. O autor reflete sobre a fragilidade da vida, a injustiça do destino e o consolo que a fé e a poesia oferecem diante do mistério da morte. O poema compõe “Crisálidas” (1864), coletânea de poemas que marca a estreia poética de Machado de Assis (1839–1908). O volume reflete a transição entre o Romantismo da época e a agudeza psicológica que se tornaria sua marca registrada. A bondade choremos inocente  Cortada em flor que, pela mão da morte, Nos foi arrebatada dentre a gente.  CAMÕES  SE, COMO OUTRORA, nas florestas virgens, Nos fosse dado—o esquife que te encerra Erguer a um galho de árvore frondosa Certo, não tinhas um melhor jazigo Do que ali, ao ar livre, entre os perfumes Da florente estação, imagem viva De teus cortados dias, e mais perto Do clarão das estrelas. Sobre teus pobres e adorados restos, Piedosa, a noite ali derramaria De seus negros cabelos puro orvalho À beira do teu último jazigo Os alados cantores da floresta Iriam sempre modular seus cantos Nem letra, nem lavor de emblema humano, Relembraria a mocidade morta; Bastava só que ao coração materno, Ao do esposo, ao dos teus, ao dos amigos, Um aperto, uma dor, um pranto oculto, Dissesse: —Dorme aqui, perto dos anjos, A cinza de quem foi gentil transunto De virtudes e graças. Mal havia transposto da existência Os dourados umbrais; a vida agora Sorria-lhe toucada dessas flores Que o amor, que o talento e a mocidade À uma repartiam. Tudo lhe era presságio alegre e doce; Uma nuvem sequer não sombreava, Em sua fronte, o íris da esperança; Era, enfim, entre os seus a cópia viva Dessa ventura que os mortais almejam, E que raro a fortuna, avessa ao homem. Deixa gozar na terra. Mas eis que o anjo pálido da morte A pressentiu feliz e bela e pura E, abandonando a região do olvido, Desceu à terra, e sob a asa negra A fronte lhe escondeu; o frágil corpo Não pôde resistir; a noite eterna Veio fechar seus olhos Enquanto a alma abrindo As asas rutilantes pelo espaço. Foi engolfar-se em luz, perpetuamente, Tal a assustada pomba, que na árvore O ninho fabricou,—se a mão do homem Ou a impulsão do vento um dia abate No seio do infinito O recatado asilo,—abrindo o vôo, Deixa os inúteis restos E, atravessando airosa os leves ares Vai buscar noutra parte outra guarida. Hoje, do que era inda lembrança resta E que lembrança! Os olhos fatigados Parecem ver passar a sombra dela O atento ouvido inda lhe escuta os passos E as teclas do piano, em que seus dedos Tanta harmonia despertavam antes Como que soltam essas doces notas Que outrora ao seu contacto respondiam. Ah! pesava-lhe este ar da terra impura Faltava-lhe esse alento de outra esfera, Onde, noiva dos anjos, a esperavam As palmas da virtude. Mas, quando assim a flor da mocidade Toda se esfolha sobre o chão da morte, Senhor, em que firmar a segurança Das venturas da terra? Tudo morre; A sentença fatal nada se esquiva, O que é fruto e o que é flor. O homem cego Cuida haver levantado em chão de bronze Um edifício resistente aos tempos Mas lá vem dia, em que, a um leve sopro, O castelo se abate, Onde, doce ilusão, fechado havias Tudo o que de melhor a alma do homem Encerra de esperanças. Dorme, dorme tranqüila Em teu último asilo: e se eu não pude Ir espargir também algumas flores Sobre a lájea da tua sepultura; Se não pude,—eu que há pouco te saudava Em teu erguer, estrela,—os tristes olhos Banhar nos melancólicos fulgores, Na triste luz do teu recente ocaso, Deixo-te ao menos nesses pobres versos Um penhor de saudade , e lá na esfera Aonde aprouve ao Senhor chamar-te cedo Possas tu ler nas pálidas estrofes A tristeza do amigo.