Quinze anos MACHADO DE ASSIS (1864) O poema “Quinze anos” de Machado de Assis retrata a perda prematura da inocência de uma jovem, criticando a sedução social que a corrompe antes do tempo. Machado explora o tema da desilusão e a transição dolorosa entre a pureza infantil e as agruras da vida. O poema compõe “Crisálidas” (1864), coletânea de poemas que marca a estreia poética de Machado de Assis (1839–1908). O volume reflete a transição entre o Romantismo da época e a agudeza psicológica que se tornaria sua marca registrada. Oh! la fleur de l'Eden, pourquoi l'as-tu fannée,  Insoluciant enfant, belle Ève aux blonds cheveux!  Alfred de Musset  ERA UMA pobre criança ... —Pobre criança, se o eras! — Entre as quinze primaveras De sua vida cansada Nem uma flor de esperança Abria a medo. Eram rosas Que a douda da esperdiçada Tão festivas, tão formosas, Desfolhava pelo chão. — Pobre criança, se o eras! — Os carinhos mal gozados Eram por todos comprados, Que os afetos de sua alma Havia-os levado à feira, Onde vendera sem pena Até a ilusão primeira Do seu doudo coração! Pouco antes, a candura, Coas brancas asas abertas, Em um berço de ventura A crianca acalentava Na santa paz do Senhor; Para acordá-la era cedo. E a pobre ainda dormia Naquele mudo segredo Que só abre o seio um dia Para dar entrada a amor. Mas, por teu mal, acordaste! Junto do berço passou-te A festiva melodia Da sedução ... e acordou-te Colhendo as límpidas asas, O anjo que te velava Nas mãos trêmulas e frias Fechou o rosto... chorava! Tu, na sede dos amores, Colheste todas as flores Que nas orlas do caminho Foste encontrando ao passar; Por elas, um só espinho Não te feriu... vais andando... Corre, criança, até quando Fores forçada a parar! Então, desflorada a alma De tanta ilusão, perdida Aquela primeira calma Do teu sono de pureza; Esfolhadas, uma a uma Essas rosas de beleza Que se esvaem como a escuma Que a vaga cospe na praia E que por si se desfaz; Então quando nos teus olhos Uma lágrima buscares, E secos, secos de febre, Uma só não encontrares Das que em meio das angústias São um consolo e uma paz; Então, quando o frio 'spectro Do abandono e da penúria Vier aos teus sofrimentos Juntar a última injúria: E que não vires ao lado Um rosto, um olhar amigo, Daqueles que são agora Os desvelados contigo; Criança, verás o engano E o erro dos sonhos teus E dirás, - então já tarde, - Que por tais gozos não vale Deixar os braços de Deus.