No entardecer dos dias de verão, às vezes FERNANDO PESSOA (1914) Este poema integra a obra “O Guardador de Rebanhos”, escrita em 1914 e publicada em 1925, por Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. No entardecer dos dias de verão, às vezes, Ainda que não haja brisa nenhuma, parece Que passa, um momento, uma leve brisa... Mas as árvores permanecem imóveis Em todas as maneiras das suas folhas E os nossos sentidos tiveram uma ilusão, Tiveram a ilusão do que lhes agradaria... Ah, os nossos sentidos, os doentes que veem e ouvem! Fossemos nós como devíamos ser E não haveria em nós necessidade de ilusão... Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida E nem repararmos para que há sentidos... Mas graças a Deus que há imperfeição no mundo Porque a imperfeição é uma cousa, E haver gente que erra é diferente, E haver gente doente torna o mundo maior. Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos, E deve haver muita cousa Para termos muito, enquanto vemos e ouvimos... (Enquanto os olhos e os ouvidos se não fecham.)