Às vezes, em dias de luz perfeita e exata FERNANDO PESSOA (1914) Este poema integra a obra “O Guardador de Rebanhos”, escrita em 1914 e publicada em 1925, por Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Às vezes, em dias de luz perfeita e exata, Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter, Pergunto a mim-próprio devagar Porque sequer atribuo eu Beleza às cousas... Uma flor acaso tem beleza? Tem beleza acaso um fruto? Não: têm cor e forma E existência apenas. A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão. Não significa nada. Então porque digo eu das cousas: são belas? Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver, Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens Perante as cousas, Perante as cousas que simplesmente existem. Que difícil ter olhos e não ver senão o visível!)