Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois FERNANDO PESSOA (1914) Este poema integra a obra “O Guardador de Rebanhos”, escrita em 1914 e publicada em 1925, por Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois Que vem a chiar, manhaninha cedo, pela estrada, E que para de onde veio volta depois Quasi à noitinha pela mesma estrada. Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas... A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco... Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco. Ou então faziam de mim qualquer coisa diferente E eu não sabia nada do que de mim faziam... Mas eu não sou um carro, sou diferente, Mas em que sou realmente diferente nunca me diriam.