Entrevista com a escritora Rosângela Vieira Rocha FERNANDO FIDELIX NUNES (2026) Rosângela Vieira Rocha é autora de uma vasta produção literária, principalmente contos, romances e obras infantojuvenis. Além de escritora, é jornalista e professora emérita da Universidade de Brasília. Nesta entrevista, conversamos sobre o seu romance “O indizível sentido do amor”, seus projetos literários e a valorização da literatura do Distrito Federal. Fernando Fidelix Nunes: O seu livro "O indizível sentido do amor" mistura memórias pessoais com memórias da conjuntura política e social da Ditadura Militar do Brasil em vários momentos. Como foi o processo de escrita desse romance para construir esse diálogo tão verdadeiro e comovente a partir de sua vivência? Rosângela Vieira Rocha: Em “O indizível sentido do amor” há uma correlação, digamos assim, entre o luto e a luta. A narradora/personagem reflete sobre a perda do marido e nesse processo faz um vaivém entre passado e presente. O livro não é linear, o presente é entremeado com o passado. Ela rememora sua vida com José desde que se conheceram até a morte dele. Como José foi militante político durante a ditadura militar, seria impossível não mencionar o contexto e o tempo em que tudo ocorreu. A maior parte da história foi escrita em um convento de monjas beneditinas, que têm voto de clausura, lugar ideal para um processo de “encontro” ou um “ajuste” com a verdade interior. Fernando Fidelix Nunes: Sua narrativa não segue uma estrutura linear. Por que você escolheu esse recurso para construir a sua obra? Rosângela Vieira Rocha: Quanto à linguagem não linear, não se trata de algo programado. O que há é uma permissão para que o livre fluxo de consciência possa entrar e tomar corpo na narrativa. É o modo de se contar a história. Haveria outros, é claro. O autor tem de buscar o lugar em que se sente mais confortável, mais “natural”. Fernando Fidelix Nunes: Em alguns momentos do livro há reflexões sobre como José se sentiria diante de movimentos reacionários que chegaram a pedir a volta da Ditadura Militar recentemente. Hoje, quase 10 anos depois da publicação da sua obra, na sua leitura, por que esse tipo de movimento ganhou tanta força no Brasil? Rosângela Vieira Rocha: Creio que esse retorno às ideias de direita não ocorre somente no Brasil, é uma tendência mundial, digamos. Não sou da área de política internacional; não me sinto à vontade para responder a essa pergunta. Posso fazer algumas inferências, como, por exemplo, a probabilidade da existência de um mal-estar de parcela significativa da população em relação às ideias progressistas. As mudanças estão ocorrendo de maneira muito rápida, incluindo as formas de comunicação entre as pessoas, a I.A., enfim, não creio que tenhamos absorvido o advento de tantas novidades. Muita gente se desiludiu com governos de esquerda e essa desilusão é manipulada pela direita em seus projetos de poder. Prova disso é a proliferação das fake news. Fernando Fidelix Nunes: Um aspecto central da sua obra é o debate sobre a transitoriedade da vida. Como você acha que a literatura pode nos ajudar a refletir sobre a relação do ser humano com a morte e com o luto? Rosângela Vieira Rocha: Meu romance atual, que deve ser lançado em agosto, traz uma reflexão sobre o luto e vai mais além. Trata-se da história de irmãos gêmeos em que a questão da identidade está muito presente. A personagem principal e narradora é uma escritora que reflete sobre o meio literário brasileiro, o etarismo, a indiferença, inclusive tenta lançar luzes sobre o próprio ato de escrever. Creio que a literatura pode oferecer visões (no plural) de tudo o que é transitório na vida, a começar de nós, os vivos. Fernando Fidelix Nunes: Você tem sido uma autora lida por clubes de leitura, principalmente os dedicados à literatura do Distrito Federal. Para você, qual é a importância desses clubes de leitura para a literatura do Distrito Federal? Rosângela Vieira Rocha: A proliferação dos clubes de leitura no país é uma das melhores novidades dos últimos anos. Assim como as feiras literárias, hoje realizadas em muitas cidades do interior, os clubes são espaços excelentes para trocas de ideias sobre literatura. Há alguns anos seria muito difícil imaginar que surgiriam no Distrito Federal tantos grupos de debates. Essa ênfase na literatura de autoria feminina é outro fator que emerge com bastante força, no país inteiro. A literatura no DF vem mostrando sua vitalidade, mas sabemos que há muito a se caminhar, ainda. Fernando Fidelix Nunes: Quais são seus próximos projetos literários? Rosângela Vieira Rocha: Sobre projetos literários, no momento só tenho espaço para pensar na divulgação do meu novo romance, intitulado “A idade em que se morre.” Com uma nova história nas mãos, só se deseja falar sobre ela. Pretendo fazer um lançamento em Brasília em agosto. Estou em um daqueles momentos excelentes em que a palavra de ordem é divulgação, é fazer o livro começar a correr mundo e encontrar seus leitores.